Em tudo.Quando se vai abaixo é necessário que se traga tesouros dos infernos. Mineiros (não os comedores calados de tutu-de-feijão) que descem ao subsolo e nos trazes as riquezas da terra são o exemplo mais concreto. Ouro, prata, cobre e ferro. Lítio, níquel e xisto betuminoso.
O trigo e a uva são exemplos caros a mim, mas nenhuma imagem me é mais cara que a descida de Yosef, morto para seu pai Yaʿaqov, e vivo na terra dos mortos, o Egito. E somente assim, a vida de seu pai tem se perpetuado. Outra tradição me conta da salvação da Alma nos ínferos do esquecimento pelo Amor.
Essa imagem poética sobre as terras de abaixo se fixou em mim como só a sabedoria mais exemplar é capaz de se anexar à nossa alma. Como um mito, por mais que se repita, é sempre nova e revivida a cada releitura.
Voltemos aos mineiros, fechando nosso recorte sobre aqueles 33 da Mina de San José, no deserto de Atacama, Chile, que hoje ainda estão nas terras de abaixo. Algo nessa situação, nessa história toda me faz crer um pouco mais na humanidade. Ainda não cheguei a qualquer conclusão sobre a nossa condição natural, exceto a de que temos um raio de possibilidades quase infinitas e, paralelamente, não somos livres.
É certo que eles voltarão. Todos vivos. Como se esse fosse o milagre a ser celebrado. Sim, milagre, mas em parte apenas.
O mistério há de ir além da nossa primeira percepção. O milagre é o tesouro que nos trazem, mesmo antes de subirem. São os laços que se criam entre si, e mesmo as animosidades geradas no ventre da terra. Todos estão com eles, porque eles, desde o seu número (33), assim como o nome da mina e o deserto, os fazem reviver a história de quem padece nas terras de baixo, e ainda assim, volta com tesouros. Neste caso, mais que somente cobre.
Espero que nunca se repita jamais tal milagre. Os homens não precisam sacrificar seus filhos toda semana para provar a fé.
Agora vamos ver se meu egoísmo permite que eu fale menos de mim.
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